"A medicina não pode ser um negócio", diz Jatene
Fonte: revista Isto É 18/07/07
O médico Adib Domingos Jatene, 78 anos, acaba de receber uma homenagem
memorável. Por decisão do governo da Grécia e da Sociedade de Cardiologia
daquele país, foi laureado como um dos sete homens sábios do planeta no
campo da cirurgia cardiovascular. Um dos feitos que o tornaram respeitado
internacionalmente foi a invenção da cirurgia que corrige uma grave
alteração na anatomia do coração Por MÔNICA TARANTINO dos recém-nascidos,
chamada de transposição das grandes artérias, mal incompatível com a vida.
Mas há muitos outros. A homenagem, feita em maio, tocou fundo o médico
nascido em Xapuri, no Acre, que há 53 anos milita para levar a rotina de
pesquisador em conjunto com a busca de soluções para a saúde brasileira. Um
dos principais responsáveis pelo crescimento de duas das maiores
instituições da cardiologia nacionais, o Instituto do Coração e o Instituto
Dante Pazzanese, em São Paulo, Jatene também foi secretário estadual e
ministro da Saúde. Desde 1976, dirige o Hospital do Coração. Nesta
entrevista, diz que está muito preocupado com os descaminhos da formação dos
jovens médicos, revela os mecanismos usados pelo governo para diminuir o
dinheiro público para a saúde e chama a atenção da elite brasileira para que
tenha mais responsabilidade social.
ISTOÉ - Hoje há cerca de 160 escolas de medicina no País. Em 96, eram
82. Precisamos de tantas?
Adib Jatene - Há uma desarrumação. O Ministério da Educação acredita
que deve formar o maior número de profissionais e que o mercado irá selecionálos. Em algumas profissões, não há possibilidade de emprego para
mais de 15% dos formandos. Porém, na medicina, o mercado não tem condição de
selecionar. Portanto, é necessário haver estruturas para formar um médico
capacitado ao atendimento que a população precisa e, sobretudo, às
emergências. Mas o problema é que há muitas escolas de medicina sem locais
de treinamento nem hospitais para os estudantes. Isso prejudica a formação.
As escolas fazem convênios com hospitais privados e colocam os alunos lá,
sem supervisão. O resultado é que a residência médica (pósgraduação para
completar a formação do estudante de medicina) acaba sendo indispensável
para a formação. Como pouco mais da metade dos alunos consegue uma vaga,
quem fica sem residência vai trabalhar nos serviços de emergência.
ISTOÉ - O primeiro emprego de muitos jovens médicos é nos
prontos-socorros, sem o treinamento adequado?
Jatene - Exatamente. É um problema muito sério que começa a ser
discutido.
ISTOÉ - Como impedir que médicos despreparados atendam à população?
Jatene - Não é o diploma que autoriza o indivíduo a exercer a
profissão, é o registro no Conselho Regional de Medicina, o CRM. Mas ele
virou uma espécie de cartório. O recém-formado leva o diploma e pega a
carteira. Mas o Conselho Federal de Medicina, várias entidades e
profissionais como eu estamos pleiteando a criação de uma forma de avaliação
para conceder a carteira profissional. Equivaleria ao exame da Ordem dos
Advogados do Brasil. Com a multiplicação das escolas, essa medida é mais do
que necessária. Não se pode autorizar o indivíduo que não está preparado a
exercer a medicina.
ISTOÉ - O sr. lançou há pouco o livro Cartas a um jovem médico - uma
escolha pela vida. Qual é o recado ?
Jatene - Quis lembrar que a medicina é uma profissão peculiar. Não
trata das coisas que as pessoas têm. Trata da pessoa. Não pode ser um
negócio, não é um meio de enriquecer, de conquistar posição social. Pode
acontecer, mas o seu objetivo é ajudar pessoas que sofrem.
ISTOÉ - Há uma crise de valores?
Jatene - Na minha avaliação, o mundo globalizado e tecnológico trouxe
muitos benefícios, mas trouxe grandes prejuízos. O maior é que as pessoas
passam a se movimentar por interesse, esquecendo valores universais como ética, honra, lealdade, gratidão, amizade, honestidade, que ficaram quase em
segundo plano. E isso não pode ser aceito em uma profissão como a medicina.
O médico não faz algo porque aquilo irá beneficiá-lo. Ele faz porque vai
beneficiar o doente.
ISTOÉ - Quais as conseqüências para a relação médico-paciente?
Jatene - É um grande problema. No passado, o diagnóstico dependia do
conhecimento do profissional, que buscava sintomas e sinais físicos,
detalhandoos com cuidado. Na medida em que a tecnologia foi incorporada, a
qualidade do diagnóstico melhorou muito. Mas recorre- se mais do que o
desejável aos métodos de diagnóstico por imagem, por exemplo. Isso reduz o
tempo que o médico conversa com o doente. Assim, o risco de abusar da
tecnologia é fazer o diagnóstico baseado exclusivamente nos exames. E até tratar o exame, o que é uma distorção. Isso também tem influência no ensino
médico. A divisão da profissão em 53 especialidades e em 54 áreas de atuação
fragmentou o paciente. Diante de qualquer sintoma, o paciente vai direto a
um especialista, pois praticamente extinguimos os clínicos gerais (que agora
queremos recuperar). Se acertar, tudo bem. Senão, vai de um especialista a
outro. Temos de buscar é um médico capaz de atender a essas pessoas e
encaminhálas. Nas faculdades, essa preocupação já aparece na hora de decidir
o conteúdo das matérias.
ISTOÉ - Os recursos da saúde brasileira tendem a diminuir?
Jatene - Há um problema crônico de financiamento. Hoje gastamos, em
média, US$ 400 per capita. Metade desse valor vem dos pagamentos feitosà medicina suplementar. E apenas US$ 200 se referem a cada um dos 180 milhões
de brasileiros atendidos pelo SUS. Países europeus aplicam US$ 2.000 per
capita. Na Constituição de 1988, está previsto que a saúde deveria ser
financiada com 30% do orçamento da Seguridade Social, o que não ocorre.
Pouca gente sabe a origem desses recursos.
ISTOÉ - Poderia explicar?
Jatene - O orçamento da Seguridade é utilizado basicamente pelos
ministérios da Previdência, Trabalho e Saúde. É composto da arrecadação da
Previdência Social, do Cofins, do PIS-Pasep, da CPMF, de participações sobre
o lucro líquido das empresas e da loteria. O governo, em tese, teria pouca
possibilidade de modificar essa aplicação.
ISTOÉ - Como o governo reduz os recursos da saúde?
Jatene - O governo criou a Desvinculação dos Recursos da União, que
permite destinar 20% desse dinheiro para outras áreas. Também as
aposentadorias dos funcionários públicos da União passaram a ser pagas pela
Seguridade. Foram dois golpes duros. Quando eu assumi o Ministério, em 1995,
a Pasta tinha 22% da verba da Seguridade. Daí propus a CPMF para chegar nos
30% enquanto esperávamos a prometida reforma tributária, que não veio até hoje. Em 98, o recurso diminuíra para 18%. Hoje, não chega a 13%. Este ano,
o orçamento é R$ 370 bilhões: 30% seriam mais de R$ 100 bilhões, mas a verba
foi de R$ 46 bilhões. Percebeu a perda?
ISTOÉ - Há mais algum trâmite que afete as verbas da saúde?
Jatene - Sim, o descumprimento da Emenda 29, aprovada por influência
do ministro José Serra. Ela determina que a União deve destinar o que
aplicou no ano anterior e mais 5% sobre o crescimento nominal do Produto
Interno Bruto. Os Estados, um mínimo de 12% e os municípios, 15%. Não é o
que se vê. O governo federal, que era responsável por quase 70% dos recursos
da saúde, dá apenas com 49%. E só sete Estados cumprem o mínimo
constitucional de 12%. Em compensação, muitos municípios colocam mais de
15%. Porém, quando começa a melhorar o orçamento, a área econômica do
governo introduz despesas novas.
ISTOÉ - Pode dar exemplos?
Jatene - O programa Fome Zero e o saneamento básico, que nunca foi do
orçamento da saúde, embora tenha importância fundamental. Temos de corrigir
esse esquema financeiro. A mudança começa por regulamentar a Emenda 29, ou
seja, definir o que pode ou não pode ser colocado no orçamento da saúde.
ISTOÉ - Há alguma garantia de que a arrecadação reverterá para a
saúde?
Jatene - Nenhuma. A única forma é acompanhar a execução orçamentária.
Isso já é feito de alguma forma pelos conselhos municipais, estaduais e
nacionais de saúde. Mas, como a nossa cultura é autoritária, nós não sabemos
praticar o debate democrático para fazer reivindicações. Para isso
acontecer, precisamos de mais honestidade intelectual. Só quemé intelectualmente honesto pode admitir que o outro está certo. E assim vamos
construindo um País.
ISTOÉ - Qual é o impacto dessa carência de recursos constante no SUS?
Jatene - Ele é o melhor modelo de atendimento à saúde do mundo, mas
tem deficiências enormes. Uma delas é o subfinanciamento. Outra é a falta de
leitos. Em um levantamento que fiz na cidade de São Paulo, apenas 11
distritos tinham mais de dez leitos por mil habitantes. E havia 39
distritos, como o Capão Redondo, com quatro milhões de pessoas sem nenhum
leito. Por isso, hospitais e prontossocorros vivem sobrecarregados.
Recentemente, foram inaugurados 16 hospitais em São Paulo, mas levaram mais
de 20 anos para ser construídos.
ISTOÉ - Como o sr. cuida da sua saúde?
Jatene - Faço tudo o que mando os meus doentes fazer. Vê o terno que
estou usando? Ele é de 12 de setembro de 1984 e ainda cabe. Eu mantenho o
peso, tenho circunferência abdominal menor do que 100 centímetros, ando no
clube, faço um pouquinho de musculação, controlo os exames, nunca fumei. E
ajudo os outros. As pessoas devem entender que estamos em dificuldades e
precisamos dar a nossa contribuição. Hoje, dois terços da população do
planeta é pobre e não qualificada. Temos que voltar atrás e ajudar, porqueé um ser humano com necessidades. Não adianta andar em carro blindado nem ter
segurança. Temos de participar da solução. Veja que a responsabilidade
social das empresas está crescendo. É por esse caminho que vamos sair do
buraco. Nossa elite tem de se conscientizar disso e participar.
ISTOÉ - Qual é o futuro da cirurgia cardíaca?
Jatene - Eu desejo ardentemente que a doença coronária, por exemplo,
seja resolvida com remédio. Estamos caminhando para isso. Veja o infarto:
30% dos pacientes morriam depois de chegar ao hospital. Aí se descobriram o
mecanismo e um medicamento injetável que dissolve o trombo. Antes de duas
horas, também se pode levar para o cateterismo, que desobstrui as artérias.
Com isso, a mortalidade caiu para 3% a 5% e a perda muscular é muito menor.
A próxima fronteira é recuperar o músculo. É o que se pretende com
célula-tronco, mas ainda não há motivos para entusiasmo. Outro avanço é o
ventrículo eletromecânico, um equipamento que faz o trabalho de uma parte do
coração que bombeia o sangue. Trata-se de um projeto do qual participo no
Dante Pazzanese. Já foi usado em um bezerro que viveu 15 dias caminhando e
comendo. Agora esse ventrículo está praticamente pronto para ser testado em
corações humanos.
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