Trata-se de um espaço com textos básicos sobre metodologia científica e estatística, ética em pesquisa, propriedade do direito autoral e patentes.
PRINCÍPIOS GERAIS DE METODOLOGIA, EPIDEMIOLOGIA e ESTATÍSTICA
Uma pesquisa científica deve ser planejada para buscar uma resposta a uma questão. Deve ser reprodutível, obtendo os mesmos resultados sempre que for feita nas mesmas condições. Em medicina, podemos dividi-los em estudos onde apenas observamos e coletamos dados de pacientes sem intervir (estudos observacionais) e estudos onde fazemos alguma intervenção e avaliamos o resultado de nossa ação através de parâmetros (estudos experimentais).
ESTUDOS OBSERVACIONAIS
Os estudos observacionais são geralmente divididos em 4 grupos: série de casos, estudos tipo caso-controle, de corte transversal e estudos coorte. As séries de casos são estudos descritivos, onde um grupo de pacientes com uma mesma característica são estudados buscando características e interrelações nos vários parâmetros analisados. Os estudos tipo caso-controle parte-se de um desfecho e se olha para trás, procurando os fatores de risco que se relacionam ao desfecho. Dentro da população estudada e onde já sabemos quem apresentou ou não o desfecho (morte, recidiva, metástase a distância, etc...) a comparação é feita entre um indivíduo que apresentam o fator de risco estudado (os casos) e outro que não apresente (controle). Nos estudos de corte transversal um determinado dado é analisado na população estudada num determinado momento. Não existe a preocupação com desfecho ou tempo, respondendo a questões imediatas. Por fim o último grupo de estudos observacionais são os estudos coorte. Eles são o inverso dos estudos caso-controle uma vez que eles partem da exposição ou não a um fator de risco e depois de um tempo procura-se quem apresentou o desfecho. Os estudos caso-controle e coorte são estudos também chamados de estudos longitudinais.
EXEMPLOS:
Série de casos
- Therapeutic outcomes of laryngeal cancer at Kyoto University Hospital for 10 years. Acta Otolaryngol Suppl. 2007 Feb;(557):62-5.
- Clinical significance of RET/PTC and p53 protein expression in sporadic papillary thyroid carcinoma. Histopathology. 2007 Jan;50(2):225-31.
- Elective neck dissection in early-stage oral squamous cell carcinoma--does it influence recurrence and survival? Head Neck. 2007 Jan;29(1):3-11.
Caso-controle
- Predictive factors for recurrent laryngeal nerve palsy and hypoparathyroidism after thyroid surgery. Clin Otolaryngol. 2007 Feb;32(1):32-7.
- Chemoprevention of head and neck cancer with aspirin: a case-control study. Arch Otolaryngol Head Neck Surg. 2006 Nov;132(11):1231-6.
- Presentation, course, and outcome of head and neck skin cancer in African Americans: a case-control study. Laryngoscope. 1998 Aug;108(8 Pt 1):1159-63.
Corte transversal
- Glenoid labrum: evaluation with MR imaging. Radiology. 1991 May;179(2):519-22.
- The use of psychoactive substances among medical students in southern Brazil. Drug Alcohol Rev. 2007 May;26(3):279-85.
- Investigations on the growth pattern of the maxillary sinus in Japanese human fetuses. Okajimas Folia Anat Jpn. 1994 Dec;71(5):311-8.
Coorte
- Cow's Milk Exposure and Asthma in a Newborn Cohort: Repeated Ascertainment Indicates Reverse Causation. J Asthma. 2007 Mar;44(2):99-105.
- Cancer risk among 43000 Norwegian nurses. Scand J Work Environ Health. 2007 Feb;33(1):66-73.
- A prospective study of tobacco and alcohol use as risk factors for pharyngeal carcinomas in Singapore Chinese. Cancer. 2007 Mar 15;109(6):1183-91.
ESTUDOS EXPERIMENTAIS
Os estudos experimentais necessariamente tem algum tipo de intervenção por parte do pesquisador. Quando os estudos experimentais são em humanos, geralmente são chamados de estudos clínicos ou ensaios clínicos, os quais podem ser estudos controlados (existe a comparação do procedimento testado com um procedimento já estabelecido ou placebo) ou não-controlados (não existe comparação, apenas a avaliação do procedimento testado).
Os estudos clínicos controlados podem ser subdivididos em função do tipo de controle que foi adotado: controles concorrentes, autocontroles e controles externos. Nos estudos clínicos controlados com controles concorrentes, os dois braços do estudo recebem o procedimento testado e o controle no mesmo período durante o estudo, tendo como única diferença entre si o procedimento testado. Se o paciente não sabe em qual dos grupos (braços) do estudo ele está (se o braço controle ou o braço que contem o novo procedimento), diz-se que o estudo é cego. Se nem o paciente e nem o médico que vai avaliar o resultado do tratamento em teste sabem em qual braço o paciente está, diz-se que o estudo é duplo-cego. Estudos autocontrolados classicamente são aqueles onde o mesmo grupo de pacientes é o controle e recebe a intervenção, por exemplo, é feito a avaliação de um paramentro pré-intervenção e o mesmo parâmetro é novamente avaliado após a intervenção. O resultado do estudo vem da comparação entre e as avaliações pré e pós intervenção. Um estudo é dito com controle externo quando o grupo controle é baseado em resultados prévios (série histórica) ou simplesmente em resultados reportados na literatura. Esta forma de comparação é particularmente utilizada para situações clínicas onde ainda não existe um padrão de tratamento definido.
Estudos não-controlados
- Voice and vocal self-assessment after thyroidectomy. Head Neck. 2006 Dec;28(12):1106-14.
- A concurrent chemoirradiation with cisplatin followed by adjuvant chemotherapy with ifosfamide, 5-fluorouracil, and leucovorin for stage IV nasopharyngeal carcinoma. Head Neck. 2004 Feb;26(2):118-26.
- Value of technetium scintigraphy and iodine uptake measurement during follow-up of differentiated thyroid cancer. Ann Nucl Med. 2004 Sep;18(6):479-82.
Estudos Controlados
- Impact of nutrition on outcome: a prospective randomized controlled trial in patients with head and neck cancer undergoing radiotherapy. Head Neck. 2005 Aug;27(8):659-68.
- Protective effect of alpha-tocopherol in head and neck cancer radiation-induced mucositis: a double-blind randomized trial. Head Neck. 2004 Apr;26(4):313-21.
- Levothyroxine in euthyroid autoimmune thyroiditis and type 1 diabetes: a randomized, controlled trial. J Clin Endocrinol Metab. 2007 May;92(5):1647-52.
Outra forma de responder a perguntas clínicas específicas é reavaliar o que foi publicado de uma forma sistemática através da metanálise. Este método é particularmente útil quando nos defrontamos na literatura com estudos com poucos pacientes e resultados conflitantes ou inconclusivos. Basicamente os resultados individuais de cada estudo são resumidos e avaliados quantitativamente.
EPIDEMIOLOGIA e ESTATÍSTICA
Algumas noções matemáticas são importantes para entender um estudo ou caracterizar uma população. Em primeiro lugar, os dados podem ser categóricos (também chamados de qualitativos ou nominais), onde simplesmente as observações são distribuídas em categorias. Outra possibilidade de classificar uma observação é incluí-la numa escala ordinal, onde valores arbitrários agrupam observações determinadas (exemplo a classificação TNM ou a escala de Glasgow). Já as escalas numéricas são chamadas de escalas quantitativas. O valor médio de um determinado parâmetro é o valor obtido por sua somatória aritmética dividido pelo número de medidas. Em termos de representação, diz-se que a média do valor do parâmetro “X” é ΣX/n, onde n é o número de medidas que foram somadas e deve ser utilizado quando a distribuição dos númros for simétrica. Já o valor mediano de um parâmetro é o valor onde, considerando todas as observações feitas, metade das observações tem valor maior e metade menor. No caso de um número par de observações, tira-se o valor médio entre os dois valores mais próximos de onde está o valor mediano. A mediana de uma série de medidas deve ser preferivelmente utilizada quando a distribuição dos valores observados for assimétrica. Na análise de um conjunto de valores para um mesmo parâmetro as medidas de dispersão são importantes por darem uma idéia de como foi a variação dos valores obtidos. Entre as medidas de dispersão, o desvio padrão é o mais importante e diz como as observações se agruparam ao redor da média. A amplitude é a diferença entre o maior e o menor valor obtido no conjunto de observações. Outra medida de dispersão é o percentil, onde um determinado valor é comparado a um valor padrão, em termos percentuais considerando uma distribuição igual ou inferior ao valor adotado. Por exemplo, o percentil 95 do valor de um determinado parâmetro medido no sangue significa que em 95% dos exames deste parâmetro terão o valor igual ou inferior e apenas 5% terão valor maior. O intervalo interquartil é definido como a diferença entre os percentis 25 e 75, contendo, por definição, os 50% centrais de uma série de valores observados. Quando na análise de um conjunto de dados for utilizada a média de valores simétricos, deve ser utilizado o desvio padrão como medida de dispersão. Quando for utilizado a mediana de valores, deve-se utilizar o percentil ou o intervalo interquartil como medida de dispersão.
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